(UM HOMEM ENTRA E CRUZA COM UMA MULHER DE LUTO QUE VEM CHORANDO)
HOMEM – Mulher? O que aconteceu?
MULHER – Ah, você não soube?
HOMEM – não, o que foi?
MULHER – Morreu!
HOMEM – Quem morreu?
MULHER – Ela morreu.
HOMEM –Ela quem criatura? Me fala!
MULHER – ela foi a primeira. Toda arrumadinha, tinha uma pequena bandeira do Brasil presa no cabelo e adorava flores.Mas só quando lhe davam o que se tornou raro nos últimos tempos.
HOMEM -Mas de quem a Senhora está falando?
MULHER – Psiu! Ela era o centro desta cidade. Já foi namorada de alguns prefeitos, o primeiro foi nos anos sessenta, outros vieram… Uns lhe davam maquiagem, flores, vestidos. Outros, nem ligava pra ela.
HOMEM – Mas pelo amor de Deus a senhora me chega chorando dizendo que alguém morreu e nunca chega aos finalmente.
MULHER – Calma meu querido, deixe-me relembrar os últimos momentos daquela senhora maravilhosa. Uma Lady, uma dama. Ali, na sua morada, imponente e serena. Mas ele a matou com a ajuda de tantos outros miseráveis. Foi ele quem cortou seus braços e pernas. Foi ele quem raspou seus cabelos e arrancou suas roupas . Mas antes, muito antes, ele já tinha retirado suas flores.
HOMEM –Por favor, não fique assim, se abra comigo, me conte quem morreu?
MULHER– Eles a cercaram, a mataram e deixaram seu corpo lá, apodrecendo por mais de um ano. E então as pessoas foram se esquecendo dela e encontraram outro lugar para passear e ela ficou ali, cercada, abandonada, morta, apodrecendo. Então, depois deste tempo, ele mandou colocar uns copos de leite de cimento em cima do seu peito.
HOMEM –Mas quem é ele?
MULHER –Ele é o dono da cidade. Mas nos meus sonhos eu não a vejo como hoje: fria, sinistra, parecendo um cemitério. Não! Eu a vejo como antes, cheia de árvores que nos davam sombra, com flores e vida.
HOMEM – Minha senhora, por favor, não me deixe neste estado quem é esta criatura que morreu?
MULHER– Ela é a Praça da Bandeira
Queeles arrancaram de nossas vidas
Mas não arrancarão nunca denossa infância.
Jarbas Oliver
24 de fevereiro de 2000